Lidar com birras no supermercado

As birras do supermercado são um grande cliché e não deixam de meter medo a muitos pais. Em público, como é que podemos evitar e ajudar a gerir as suas emoções?


Quer queiramos quer não, o facto de não sermos capazes de gerir a nossa frustração, cansaço e descontentamento perante um cenário deste tipo não ajuda em nada a criança. Pensemos, por isso, em encontrar alternativas que possam distrair a criança e serená-la. Na verdade, a hiper-estimulação nunca foi benéfica para ninguém, muito menos para o seu filho(a) que já está a ser muito solicitado por coisas com cores, luzes e movimentos. Respire fundo e saiba que, enquanto são pequenas, as crianças absorvem todos os comportamentos e imitam-nos. E, fora de si e alimentando a sua irritação, não vai conseguir pensar como deve de ser.

Vão a casa dos avós? Diga-lhe. Vão às compras depois da escola? Informe! Não, as crianças não têm de saber tudo, mas têm de saber tudo aquilo em que estão implicadas. Isso vai permitir que ela própria antecipe, visualize e recorde o sítio para onde se dirigem e, com a sua ajuda, encontrar formas de se sentir envolvida.

Uma criança só coopera quando se sente envolvida. Vão ao supermercado? Pode pedir-lhe ajuda para ir buscar um saco de pão, pode dar-lhe um livro para ler ou um caderno para riscar (que já leva consigo, claro!). Acredite que ir às compras não é algo que uma criança costume ter como plano de final de dia, mas uma ida às compras consigo e sentir-se envolvida pode ser óptimo para a sensação de pertença. E se puder trazer consigo algo para lhe dar de beber e comer, também é um ótimo plano!

É final de dia? O seu filho(a) ainda faz a sesta da manhã? No fim-de-semana passado tiveram um casamento e uma festa de anos? E hoje tem mesmo mesmo de ser? Não podemos ter sempre o melhor dos dois mundos - há alturas em que temos de tomar decisões e avaliar se temos de expor os nossos filhos a tudo ou se não seria mais sensato ficar em casa e permitir que ele durma a sesta toda.

Há muitas formas de birras. Umas mostram o descontentamento da criança, outras porque há demasiados estímulos.
É mesmo necessário perceber que aquele comportamento desadequado é apenas o reflexo que a criança não está sossegada e tranquila. Não é necessário procurar explicações, mas sim acolher o que a criança está a sentir. E acolher sentimentos não é - repito, não é! - dizer que ela tem razão ou que aquilo que ela fez está certo. Não é. 
Acolher sentimentos é:
- Joana, estás tão zangada com o pai porque ele disse que não levava aqueles lápis de cor? Tu querias mesmo aqueles lápis de cor e reagiste daquela forma, foi isso?
- Miguel, já entendi que não gostas de vir ao shopping fazer este tipo de compras comigo. Tu preferes brincar a outras coisas, não é, e por isso foste inflexível há pouco?
E não é perder autoridade ou dar parte fraca - está apenas a dizer o que viu. Mais nada.

Sim, se puder, isole o seu filho. Simplesmente, dirijam-se para um local onde estejam menos pessoas, para um quarto ou corredor se estiverem em casa de outras pessoas e siga estes passos:
i) ajude-o a acalmar-se. Ajude mesmo, sobretudo se ele for pequenino e ainda não tiver desenvolvido estas competências.
ii) Diga-lhe o que viu - seja factual: “Eu vejo que estás cansado e começaste a responder numa forma que eu não gosto.’
iii) Peça cooperação. Se for muito pequenino, faça sugestões. Se já for maior, oiça o que tem a dizer.
iv) Se disser que se vão embora (nem que seja em tom de ameaça) cumpra com o que diz. E sabe, aqui entre nós, há momentos em que é mesmo a melhor decisão.
v) A sós, e já com calma e em casa, fale sobre o assunto. Lembre-se de trabalhar a retaguarda, de treinar com eles e de os ajudar a controlar e gerir as emoções.

Todos temos medo que os miúdos não conheçam os limites. Temos medo que nos julguem. E, por isso, e para assegurarmos que todos sabem quem manda, ameaçamos, humilhamos na frente de todos e até contamos mentiras:
- “Shiu, pouco barulho que o senhor doutor ainda sai do gabinete e dá-te uma pica”
- “Voltas a fazer isto e vais ver o que é bom quando chegares a casa”
Acha mesmo que as crianças funcionam, no médio e no longo prazo, com base no medo? Sim, podem funcionar e isso é a prova que nós não ensinamos absolutamente nada. Temos de estar sempre a lembrar o que é suposto fazer. É a prova que não tornámos as crianças autónomas nem com capacidade para distinguirem o que pode ou não ser feito e de quererem fazê-lo dessa forma.

Quando as coisas correm mal, é mesmo importante que possamos dizer à criança que o comportamento adequado era outro e o que era supostamente esperado. Como viu no primeiro texto, é também importante que saiba identificar o tipo de birras - do andar de cima ou do andar de baixo.

Como disse no primeiro ponto, é muito importante que a criança tenha um adulto centrado e calmo. Use uma voz calma e serena para falar com ela - essa serenidade vai ativar a parte superior do cérebro que é aquela que dá o pensamento e a empatia, em vez de ativar os circuitos de resposta ao medo e ao perigo.

Lembre-se que, mesmo estando em público, quem vai consigo para casa é o seu filho e não os estranhos que assistem à birra. As regras e os limites são importantes e os comportamentos desadequados devem ser orientados tal como os sentimentos devem ser acolhidos. Lembre-se que nenhuma criança se comporta mal estando bem e lembre-se que todos os comportamentos menos adequados são excelentes oportunidades para mostrar como deve de ser.

Magda Dias, autora do blog Mum's the Boss.