Lidar com birras

5 Dicas para saber se é uma birra ou um comportamento manipulador

Ali entre os 18 e os 24 meses muitos pais referem-se a uma mudança (que por vezes é brusca) do comportamento da criança. Alguns dizem que, de repente, o anjinho virou diabinho e começam as famosas birras. Os ingleses até têm um termo para esta fase - os terrible two ou os terríveis 2 anos. Categorias à parte, afinal de contas o que é que está a acontecer?
Abaixo ficam 5 dicas para saber se afinal de contas o seu filho é um manipulador ou se faz mesmo parte desta fase.


O que está a acontecer é, simplesmente, a criança a crescer e a ter uma maior noção de si e do que a rodeia. Até este período, esta consciência de si não existia. Agora que a criança começa a adquirir a marcha e a fala, percebe que está menos dependente dos adultos e que já pode uma série de coisas. Mas não é bem assim. Por uma questão de segurança, ainda não pode tudo. Só que ela não sabe disso e mostra a sua indignação e frustração desta forma. E é comum ouvir os pais a dizer que a criança os desafia - eu digo-lhe que o seu filho está a descobrir o mundo. E isso é uma aventura para ele, o que vai exigir atenção e paciência dos pais.

É comum dizer-se que não se deve dar tempo de antena a uma birra. Muitos dizem que o melhor remédio para acabar com uma birra é mesmo ignorar a criança. Infelizmente, não é assim tão linear.

Há birras tão sérias e tão intensas que, deixar a criança desamparada, seria o mesmo que deixá-la sem cuidados quando cai e se magoa. Por isso, é determinante identificarmos o que está a acontecer naquela situação.

Mas antes de continuar, gostava que me dissesse se sabe em que altura é que o cérebro de um ser humano fica formado? Poderá ser uma surpresa para si mas os estudos referem-se aos 25 anos de idade. Isto prova que competências como a gestão do impulso e a auto-regulação levam algum tempo a tornarem-se refinadas e maduras. Se tem de esperar até aos 25 anos do seu filho para ele saber gerir as birras? Claro que não! A sua ajuda e a qualidade das experiências que ele vai ter é que são fatores decisivos para esse amadurecimento.

Há autores que se referem a dois tipos de birras - e esta categorização vai ajudar-nos a olhar para os nossos filhos e a percebê-los melhor.

As birras do andar de baixo são as birras emocionais e são as mais difíceis de gerir para a criança. Há um turbilhão de emoções que lhe acontecem e, porque ela ainda não as sabe acolher, regular e gerir, dão a sensação de serem muito exuberantes e barulhentas. Nessa altura, o mais importante a fazer é retirar a criança do local e ajudá-la a acalmar-se. Podemos dar-lhe um abraço ou simplesmente chamar por ela e, com muita calma, ajudá-la a focar-se noutra coisa completamente diferente. Na grande maioria das vezes não há correção a fazer - estas birras acontecem por algum momento de frustração e tão depressa vêm como vão. É deixar a criança ir brincar.

 As birras do andar de cima, ou seja, aquelas que acontecem na área mais executiva do cérebro, são comportamentos mais manipuladores e, mesmo sendo assim, estão certas. Porquê? Porque a criança sabe o que quer e atua nessa direção. Faz o que tem a fazer!

Como saber qual é a diferença entre estas e as de cima? Usando o cliché do chocolate - se nas do andar de baixo der à criança aquilo que ela quer, o comportamento mesmo assim não pára. Nas do andar de cima, a criança sossega. E isso vem mostrar-nos que, numa circunstância, ela estava a gerir-se e, na outra, não tinha essa capacidade.

É fundamental olharmos para os nossos filhos quando estes comportamentos acontecem. Porquê? Porque só quando olhamos é que percebemos que tipo de linguagem o corpo e o rosto comunicam. Há miúdos que ficam muito tensos, choram com muitas lágrimas e outros que se deitam no chão. Cada um tem a sua forma de reagir. Ao pai e à mãe cabe a capacidade de olharem e descobrirem o que é que, afinal, a criança está a dizer.

Quando estamos perante as birras do andar de cima seria uma tontice ignorar a criança. Vale a pena acolher os sentimentos. Dizer-lhe que sabe que ela queria muito o chocolate ou ficar nos avós ou ainda ir dar mais uma volta no escorrega é meio caminho andado para ela se sinta escuta e que saiba que a mãe não rejeita o que ela lhe diz. E escutar não é ceder. É apenas acolher os sentimentos do seu filho. E há momentos em que ele pode ter o que mais deseja e outros em que não. Por isso é que ele não está contente e está no direito dele.

E sabe o que é isso? É a vida a acontecer.

Magda Dias, autora do blog Mum's the Boss.